Elias José: para quem lê o mundo com poesia

“Pais e professores, fiquem atentos se quiserem formar gerações de pessoas felizes e aptas a vencerem na vida. O livro infantil, que é oferecido para a criança ler, ou é lido para ela, caso não esteja alfabetizada ainda, é um brinquedo capaz de despertar o interesse pelas coisas sensíveis, criativas, inteligentes e belas.”

Em tom de manifesto ou proposta, o trecho entre aspas revela a orientação de uma vida. Os olhos no presente e as ações que apontam para o futuro estão nas entrelinhas desta obra, fundamental para os interesses de quem busca uma cidadania plena, um mundo com relações mais justas, um lugar destacado para a afetividade. Um mundo em que a palavra exerce sua força, seu poder transformador, com poesia e beleza. Um mundo imaginado e pretendido por Elias José.

Poeta mineiro de longa estrada, ele dá contribuição singular ao estudo e às práticas em torno da leitura com seu último livro, “Literatura Infantil: Ler, Contar e Encantar Crianças”. Trata-se da reunião de textos em que se misturam narrativas sobre a vida do autor e conceitos relacionados à formação de leitores e à Educação de maneira geral. E o bonito da proposta está justamente aí: as duas estações se confundem, porque Elias José tem um currículo de dar inveja, entre os ofícios de escritor e professor. Então, temos o encontro do depoimento mais particular de quem viveu em torno do livro e o conteúdo de que lecionou por décadas, com muito equilíbrio na abordagem.

Elias confessa: “quero que o leitor faça uma viagem comigo. Faça um jogo do imaginário capaz de nos sensibilizar, de nos envolver na fantasia”. A menção é explicitamente relacionada ao seu fazer ficcional, mas bem poderia dizer respeito à sua obra crítica. É que o seu leitor é convidado a ir além da ficção, refletindo sobre que caminhos podem ser trilhados por quem media a leitura de crianças e jovens. Para apontar as direções possíveis, o tempo todo há a remissão aos grandes autores, ora com citações pontuais, ora com declarada admiração pela biografia dos mestres. Versos de Drummond e Quintana, conceitos de Roger Chartier e Paulo Freire, trechos de Adélia Prado, histórias de escritores notáveis – como ele – que ajudam a compor um painel sobre que lugar deveria ter a leitura na infância. Recuperando relatos e confrontando com suas próprias experiências, o autor questiona: “como ler as pessoas? E como ler as coisas?”. Perguntas difíceis de serem respondidas mas que partem de uma certeza: “É uma urgência saber ler quem e o que nos rodeiam, para entendermos melhor as pessoas, as coisas, a vida e a nós mesmos”.

Sem incorrer no erro de indicar soluções em formato de “receita de bolo”, Elias José também não deixa de se posicionar, fazendo sua opção pelo encantamento. É escolha um tanto óbvia, considerando a militância poética exercida ao longo de quase 40 anos de publicações, tendo poemas traduzidos e editados em países como México, Argentina, Estados Unidos, Itália, Polônia, Nicarágua e Canadá. Vencedor dos principais prêmios de literatura do país, destacando-se como contista ou ensaísta, é na poesia que o autor encontra seu espaço de atuação mais freqüente. Daí o convite renovado a cada obra: “Desejo a todos os leitores os cinco sentidos ligados, mais o sexto, a intuição, e muita vontade para ler e reler o mundo de forma poética”.

A via do encantamento precisa, portanto, ser revelada. Pois, como se pode supor, não aparece espontaneamente. E talvez seja este o momento maior da obra “Literatura Infantil”, a discussão sobre os modos e os meios de se produzir deleite a partir da exploração oral de uma obra de arte. Educadores e pais podem achar que dominam esta noção, qual seja a da importância da contação de histórias para a formação do hábito da leitura. Ainda assim, hão de ampliar os sentidos deste tipo de empreendimento quando se depararem com o depoimento mais pessoal do poeta, recuperando as histórias e as estratégias narrativas dos contadores de sua infância, dos contadores vivos em sua memória. Singelo relato com uma personagem marcante, a avó paterna, libanesa de origem humilde: “Ela nunca foi alfabetizada nem em sua terra nem aqui, mas como sabia encantar. Contava com gestos e caras, a modulação da voz segundo a ação ou os personagens. Aquelas histórias faziam a gente voar até o Líbano, nosso paraíso preferido”.

Generoso na análise, o autor dedica um capítulo à abordagem crítica da obra de três mulheres poetas de Minas Gerais, com expressiva contribuição à Literatura Brasileira. Henriqueta Lisboa, Elza Beatriz e Wânia Amarante aparecem sob o olhar cuidadoso do especialista, que leva o leitor a observar a matéria poética de outro ponto de vista, não puramente interpretativo, mas como horizonte de descobertas. Ele chama atenção para a melodia num poema, para o que há de lúdico em outro, aqui e lá evidenciando a riqueza simbólica de certas passagens. Percorrendo os meandros da poesia alheia, Eliás José faz pensar se o fazer poético também não é um trabalho do leitor. Quanta poesia há no ato de ler versos, quando somos capazes de lhes atribuir sentidos diversos? Quanto lirismo podemos ver em poemas que agem sobre nosso íntimo, quando operamos a leitura mais intensa e sensível?

Na conclusão da obra, retoma-se o viés biográfico para contar os caminhos trilhados na sua formação de escritor e professor. A influência das leituras à sua maneira de escrever, os fatos que provocaram sua imaginação ao longo da vida e outras histórias devem ser lidos não como referência mas como exemplo do que pode resultar uma trajetória entre livros.

Infelizmente, esta trajetória teve seu fim com a morte de Elias José, no último dia 2 de agosto. Perto de completar 72 anos de vida, o poeta assina a sua derradeira obra crítica com uma passagem tocante, ao final do capítulo cinco: “Não me importa saber se o homem nasce cantando ou contando. O bom mesmo é saber o que a poesia e a prosa significam em nossas vidas. De minha parte, seria uma felicidade morrer (o mais tarde possível) escrevendo coisas para outras pessoas cantarem ou contarem comigo”. Pois cantemos a obra de Elias José, contemos seus versos adiante. Pelo bem da leitura e da literatura em nosso país. Pelo bem do poeta. Feliz, poeta.

 

Resenha do Livro

Literatura Infantil: Ler, Contar e Encantar Crianças

Elias José

Editora Mediação

116 páginas


Professor universitário (Uerj e FACHA) e escritor. Nas horas vagas, músico. Aqui, um pouco de tudo: música, literatura, futebol, política e desimportâncias.

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